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ModaEntrevista: André Carvalhal fala do começo de um novo mercado de moda

Entrevista: André Carvalhal fala do começo de um novo mercado de moda

13 de dezembro de 2018 • 13:12
por Yuri Ribeiro

André Carvalhal largou uma carreira bem consolida e segura em uma das principais marcas de moda do Brasil para dedica-se a entender as transformações que aconteciam no mundo, dos negócios, da moda e na economia. Publicitário e consultor de moda, levou suas impressões a cerca dos assuntos para o livro “A moda imita a vida”, o primeiro de uma série de três que traçam o novo cenário, e também um manual de sobrevivência, para os negócios de moda. André esteve em Teresina para lançando “Viva o fim”, a obra mais recente da trilogia. Nele, e também nessa entrevista ao O DIA, ele fala sobre as principais mudanças do setor da moda, e consequentemente da economia, e ainda celebra o fim! Aceitar as transformações e estar aberto ao novo, tendo propósitos, já é, segundo ele, a nova fórmula para o novo cenário de moda.

Quando você iniciou sua carreira as ferramentas disponíveis e as estratégias usadas eram feitas dentro de um contexto de um modelo daquela época. Hoje estamos em outro contexto que transformou tudo. Queria que você comentasse um pouco sobre o contexto daquela época e que coisas você identificou ali que mudariam em um futuro próximo?

Eu comecei a trabalhar com moda bem na época do surgimento da internet e eu acho essa revolução digital que a gente passou foi determinante para a transformação não só da moda, mas da nossa vida, da forma como a gente se relaciona com as pessoas, de como a gente trabalha, como a gente comunica, como a gente compra e como a gente faz tudo. Então no início tudo era muito voltado para o mundo real, para o mundo físico era tudo muito palpável e acho que hoje a gente vive no momento onde agora o virtual é o que comanda. Então nas marcas o e-commerce é a loja mais importante, os canais de redes sociais são as principais formas de comunicação com os clientes e de posicionamento de marca. Essa é a maior diferença que eu percebo nas estratégias e nas oportunidades para as marcas

Que coisas você foi se dando conta de que não fazia mais sentido as marcas estarem  reproduzidos como comportamento de mercado?

Muita coisa se transformou e muita coisa está se transformando ainda, a gente ainda está entendendo como é que funciona. Por exemplo, há muito pouco tempo atrás as marcas tinham duas coleções por ano e hoje a maioria das marcas têm coleções praticamente mensais e tem o Instagram, uma rede social que demanda uma produção de conteúdo muito grande e uma produção de imagens quase que diárias. Então campanha, por exemplo, é uma das coisas que têm sido muito repensadas quanto à forma de se fazer.

Todo trabalho de marketing que é feito ele pode não funcionar se a empresa não se conhecer e entender suas potencialidades. Que tipo de hábitos as empresas por em prática para que esse trabalho externo funcione?

Tem um exercício que eu procuro sempre fazer desde quando estou dando uma consultoria até quando estou trabalhando com a marca, que é fazer sempre esse cruzamento de um olhar para tudo que está acontecendo no mundo, que é esse olhar para fora, com um olhar para dentro, um olhar para o que acontece com a marca e com as pessoas que trabalham na marca, toda essa movimentação interna. Muitas vezes você fica só com esse olhar para fora e se você olha muito para fora você acaba se perdendo muito, perde identidade, perde a personalidade e acaba virando uma reprodução do que já está acontecendo no mundo e se você fica olhando muito para dentro muitas vezes você corre o risco de se desconectar com o mundo, risco de fazer as coisas no tempo errado e na proporção errada e de às vezes não se conectar com o público. Então acho que é importante esse cruzamento o tempo inteiro, buscando equilibrar com o que está dentro e o que está fora.

Você sempre falou sobre identidade. Qual a importância dela hoje para uma marca?

Sempre é muito importante porque a identidade é o que faz as pessoas se conectarem com a marca. Mas até mesmo conceito de construção de identidade e o entendimento do que é a identidade de uma marca vem se transformando muito para um conceito muito mais desafiador. Porque antigamente existia o pensamento de que a marca precisava ter uma identidade única, uma identidade fixa e muito clara, que durasse ao longo do tempo e hoje o mundo é muito mais fluido, é muito mais líquido, é muito mais múltiplo. Então as acordam querendo se vestir toda de preto e no outro dia querendo se vestir toda de roupa estampada. As possibilidades e o excesso de informação e estímulos que a gente está exposto a todo o momento faz com que a gente seja cada vez mais mutante. Eu acho que as marcas precisa incorporar esse conceito também na construção das suas identidades de não ser tão estagnadas, de não ficar tão fixadas ao longo do tempo.

Antes de você lançar o livro, existiam muitas coisas que estavam aí e que ninguém viu ou que ninguém tinha dito da forma que você falou. Que tipo de coisas foi te incomodando no mercado que te levaram as reflexões presentes nos livros?

Acho que um pouco desse olhar para fora e o olhar para dentro eu trago muito para minha vida. Eu observo muito o que está acontecendo a minha volta e procuro sentir muito que está acontecendo dentro de mim e em algum momento eu comecei a ver que eu não tinha mais vontade daquela moda que eu fazia, daquele tipo de comunicação, de ação e até mesmo de roupa. Eu via meu armário cheio de roupas e via que eu usava todo dia a mesma roupa, eu não usava aquela quantidade de coisas que eu tinha. Eu tinha o hábito de comprar muito e depois esse hábito foi diminuindo e foi sendo substituído por uma vontade de viajar e comprar coisas para minha casa e guardar dinheiro. Então comecei a ver que eu estava me transformando muito e a minha relação com a moda estava transformando também. E aí eu comecei a me conectar com muitas pessoas que também estavam passando por esse movimento meio que de forma inconsciente. E aí eu acho que ao mesmo tempo o mundo estava começando a perceber isso também, lá fora algumas coisas que aconteceram e grandes marcas fizeram com que a moda começasse a ser muito questionada. Durante muito tempo ela era muito glamourizada e de uma hora para outra as pessoas começaram a duvidar da moda, questionar os processos. E aí eu acho que foi meio que isso que aconteceu.

A questão da moda com propósito, você acha que é um caminho que vem dentro da indústria, e de dentro das marcas, para o público ou é o consumidor que diante dessas inquietudes começou a pedir por algo diferente?

Eu acho que vem mais do público, mas a gente não pode também esquecer que as marcas são feitas por pessoas. Hoje o que eu vejo é que dentro das marcas muitos profissionais estão despertando para essas questões  Profissionais na tentativa de viver uma vida com mais qualidade e trabalham com mais propósito, com mais significado. Essas pessoas estão buscando trazer isso para as empresas também para se sentirem felizes e confortáveis trabalhando e acreditando no que elas estão fazendo; Então acho que é um movimento que é pessoal, parte das pessoas, mas parte das pessoas que estão fora e dentro da empresa.

Você acha que isso cria um cenário propício para a moda autoral ganhar cada vez mais espaço?

Acho que com toda certeza. Acho que a gente foi para o movimento de muita expansão, de muito volume, de muitas marcas e de coisas muito grandes. As pessoas estão começando a repensar isso também, de querer se conectar mais com aquilo que é próximo, aquilo que a gente conhece, aquilo que você sabe quem fez, que você sabe de onde vem. Então acho que tem uma questão de você ter uma segurança maior com a marca que você está se relacionando, com a forma como ela está fazendo as coisas. E eu vejo que muito dessas marcas e desses coletivos não tem mais vontade de crescer. Não temos mais lojas que tem vontade de ser muito grande como eram as marcas das gerações passadas.

Nesse novo livro você traz reflexão sobre o fim de alguns recursos. Fazendo uma relação com o mercado, estamos em um momento onde se fala muito em brechó e ressignificação de peças de roupa. Porque é tão urgente falar sobre o fim e porque temos que falar desse momento de desaceleração?

Acho que é realmente é a hora da gente falar disso hoje. Vivemos em uma crise planetária em várias áreas: na economia, na política, na moda, no consumo e no meio ambiente. Em vários lugares essa crise ela tem muito a ver com a forma que a gente tem tratado as pessoas, o planeta e os negócios. É uma questão de sobrevivência mesmo. Muitas vezes as pessoas não entendem muito sobre isso, mas muita gente tem acordado e reagido de um jeito diferente para todas as essas coisas. De uma forma coletiva as pessoas estão começando a ter um olhar diferente para o mundo, mas fora isso existe situações que são palpáveis, que são problemas de escassez de recurso mesmo: escassez de água, de árvores, de madeira, de peixe, de uma série de coisas que vão impactar muito no nosso futuro. E se a gente não repensar o hoje a forma como a gente produz, como a gente usa matéria-prima, a gente simplesmente não vai ter nada no futuro e os nossos negócios vão ser cada vez mais caros, cada vez mais difíceis. De alguma forma isso é um despertar também das empresas para o entendimento que se elas não mudarem a forma que elas estão fazendo hoje o futuro vai ser cada vez mais difícil.

Mas é possível um equilíbrio entre sustentabilidade e consumo, uma vez que a moda é capitalista e precisa incentivar o consumo para se manter?

O consumo não é uma coisa ruim, ele depende muito do que você está consumindo. A gente consome todo o tempo. A gente consome água, consome comida, a gente consome relações. Então consumir por si só não é uma coisa ruim, o problema está em como você consome, o que você consome, de onde que vem, como que é feito. Hoje existem novas formas de acesso à moda, por exemplo, temos como trocar, pegar emprestado, customizar e tudo isso é uma forma de consumir seja com menos ou mais impacto. Então eu acho que realmente vai precisar chegar ao equilíbrio do entendimento de como a gente vai ter um consumo que movimenta o mercado, que movimenta economia, que emprego e faz empresas crescerem.  Mas como tudo isso deve ser feito vai ser a favor da vida e não algo contra a gente.

Antes era mais fácil de manter um negócio. Existiam fórmulas, estratégias e modelos de produzir e gerenciar muito pré-estabelecidos. Hoje, com a internet, escassez de recursos e a busca por uma identidade faz com que os empresários fiquem perdidos. Qual mensagem você deixa como conselho de por onde começar para que as coisas funcionem dentro desse novo contexto?

A gente tem que começar do zero. No momento é importante entender que o mundo que a gente conhecia, os negócios que a gente conhecia, a forma como a gente criava, produzia, vendia e comunicava, acabou perdeu o sentido. Então esse livro “Viva o fim” é sobre isso. A gente fala tanto em criar uma nova moda, uma nova economia, uma nova política, mas a gente não se desapega do antigo, das novas fórmulas antigas, dos antigos formatos e padrões que já estão estabelecidos. Enquanto a gente não aceitar que aquilo acabou, que eu não dá certo e que perdeu o sentido e se abrir para o novo, a gente não vai conseguir construir um novo mercado, um novo mundo. Então para começar, na verdade, para recomeçar, a primeira coisa a fazer é realmente entender que a gente tem que começar do zero. A gente tem que olhar para fora, para o mundo, ver o que tá acontecendo e olhar para a gente, entendendo o que a gente pode fazer diferente, de transformador. 

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